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As Metáforas das Tamareiras

POR VANDI DOGADO  Certa vez ouvi de um palestrante a belíssima lenda de origem árabe que diz: “quem planta tamareira não colhe tâmaras”. Um afoito espectador na plateia interrompeu-o, erigindo a mão direita e, sem aguardar o devido consentimento, logo emendou em tom elevado e extenso: Mas, pooorqueeeee, senhor? O palestrante como se já esperasse o questionamento manifestou um incógnito sorriso e elucidou que a tamareira leva aproximadamente 100 anos para produzir frutos, ou seja, se considerarmos que a plantemos aos 20 anos de idade, teríamos de viver 120 anos para colher suas tâmaras. Considerei o provérbio esplêndido, porque dele se podem extrair nobres ensinamentos de linguagem e de sapiência. Primeiramente, se tomarmos a expressão no sentido denotativo, defrontemo-nos com uma típica falácia, pois, ainda que naquela época a expectativa de vida fosse baixa, haveria exceções para qualquer ser humano que plantasse a árvore antes dos vinte anos. Por exemplo, se uma criança de 10 anos

Poemas secretos de Manuel Bandeira são revelados

POR VANDI DOGADO
Quando sabemos que há alguma obra de algum artista consagrado que ainda não chegou ao público, ficamos na expectativa. Depois de anos esperando os poemas secretos de Manuel Bandeira, finalmente estarão à disposição de todos que apreciam a boa literatura. Um brinde a veia satírica de Bandeira...
LEIA MATÉRIA DA ÉPOCA ABAIXO:
Entre os manuscritos de Manuel Bandeira arquivados na Fundação Casa de Rui Barbosa, os poemas abaixo estavam lacrados há 35 anos, e também foram abertos agora por determinação da CGU, depois de um pedido de ÉPOCA através da Lei de Acesso à Informação. Os versos revelam a verve satírica de Bandeira, e expõem disputas e inimizades no meio intelectual da época. O poeta remeteu alguns destes epigramas a amigos próximos, e mais de um deles chegou a circular de mão em mão entre seus conhecidos. Quase 50 anos depois da morte de Manuel Bandeira, já era o momento deles virem a público. Vários dos poemas não têm título.

Façam-me uma estátua incrível

De algum novo Donatello.
O mais equestre possível:
Eu montado em Mário Melo!

CONTEXTO: Mário Melo foi um historiador e jornalista pernambucano, que morreu em 1959. Famoso defensor dos monumentos históricos do seu Estado natal, ele entrou numapolêmica com Manuel Bandeira na década de 1950. Naquela época, a Prefeitura do Recife planejava erguer em praça pública um bustoem homenagem a Bandeira. Mario Melo foi uma das principais vozes contrárias ao projeto, alegando que a lei proibia homenagear pessoas vivas. Bandeira nunca se manifestou publicamente sobre a polêmica, mas nos bastidores escreveu estes versos ridicularizandoseu oponente. Quando ele morreu, Bandeira prestou homenagem ao jornalista na Academia Brasileira de Letras, como lembra o historiador Edson Nery da Fonseca.

Mário Faustino, és de veras.

E se és, Faustino, veado,
Bem poderás ser chamado
Pelos a quem dás ou deras
Ou darás, Faustino amado,
Mário veado de veras!

CONTEXTO: Mário Faustino era um poeta e crítico literário piauiense, que morreu num desastre aéreo aos 32 anos de idade. Ficou muito conhecido na segunda metade dos anos 1950, quando editou uma página literária no Jornal do Brasil, em que publicava poemas de novos autores e também de poetas consagrados. Não há notícias sobre qualquer desavença ocorrida com Manuel Bandeira, embora a posição de Faustino como editor que selecionava o que era ou não publicado no jornal, o colocava em confronto direto com a vaidade dos escritores da época. Por ser um tipo delicado, que não andava com mulheres, pesava sobre ele uma nunca esclarecida fama de homossexual.

Mulata bonita um dia

Por um mau jeito se peida:
Sua mulata é a Baía;
O peido, Renato Almeida.

CONTEXTO: Renato Almeida foi um pintor mineiro que retratou, entre outras coisas, paisagens baianas. Este epigrama provavelmente circulou entre os amigos de Bandeira nos anos 1920. Em carta a Mário de Andrade de abril de 1927, o poeta fala de sua implicância com o pintor: “Cuidado também com o Renato. Estou convencido que é ruinzinho. Na Bahia vi documentos tristes a respeito dele. E que bobagem ele escreveu sobre a terra, falando na 'sensibilidade de moderno' dele que prefere avenidas e arranha-céus. Quando saiu a entrevista dele (...) fiquei tão safado que desfechei o epigrama. Naturalmente você deve ter lido aí”.

Capelinha do padre Faria

-Abaixo, abaixo as capelas!
Gritava o padre Faria.
Mas não conta o padre entre elas
A da sua freguesia.

CONTEXTO: O padre João de Faria Fialho nasceu no Estado de São Paulo no século XVII, e foi um capelão que participou de diversas expedições em busca de esmeraldas. Ficou rico explorando ouro emMinas Gerais, e foi figura importante no desenvolvimento de Ouro Preto. A Capela do Padre Faria é uma das igrejas tratadas por Manuel Bandeira em seu Guia de Ouro Preto, publicado em 1938. Este parece ser um epigrama de temática histórica, sem justificativa para ter sido lacrado com os demais.

Como deve chamar-se o que sublima

Sua pérfida pessoa e as mais difama?
É Sílvio Julio de Albuquerque Lima
Ou Sílvio Julio de Albuquerque Lama?

CONTEXTO: Sílvio Julio foi historiador e professor universitáriodedicado ao estudo da América Latina. Foi contemporâneo deManuel Bandeira na Faculdade Nacional de Filosofia, quando dava aulas de História da América, enquanto Bandeira era professor de Literatura Hispano-Americana. Como os temas eram próximos, é possível que os dois convivessem no ambiente acadêmico, nem sempre de forma harmoniosa, como deixa claro o poema.
Além dos poemas de Manuel Bandeira, entre os documentos revelados nesta semana, está uma carta do amigo do autor e escritor Mário de Andrade. Ela é o primeiro texto divulgado no qual Mário de Andrade refere-se aos comentários sobre sua homossexualidade (leia a carta de Mário de Andrade). Parte da correspondência há havia sido divulgada por Bandeira, mas a parte sobre a homossexualidade fora suprimida.

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