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As Metáforas das Tamareiras

POR VANDI DOGADO  Certa vez ouvi de um palestrante a belíssima lenda de origem árabe que diz: “quem planta tamareira não colhe tâmaras”. Um afoito espectador na plateia interrompeu-o, erigindo a mão direita e, sem aguardar o devido consentimento, logo emendou em tom elevado e extenso: Mas, pooorqueeeee, senhor? O palestrante como se já esperasse o questionamento manifestou um incógnito sorriso e elucidou que a tamareira leva aproximadamente 100 anos para produzir frutos, ou seja, se considerarmos que a plantemos aos 20 anos de idade, teríamos de viver 120 anos para colher suas tâmaras. Considerei o provérbio esplêndido, porque dele se podem extrair nobres ensinamentos de linguagem e de sapiência. Primeiramente, se tomarmos a expressão no sentido denotativo, defrontemo-nos com uma típica falácia, pois, ainda que naquela época a expectativa de vida fosse baixa, haveria exceções para qualquer ser humano que plantasse a árvore antes dos vinte anos. Por exemplo, se uma criança de 10 anos

Mito e Moro, honestos sem dúvidas

POR VANDI DOGADO
Em tempos de irracionalidade, lançar luz sobre o breu tornar-se imprescindível. Nas últimas eleições presidenciais, observamos um espetáculo tragicômico nas mídias convencionais e, principalmente, nas Novas Tecnologias da Informação e Comunicação. Em redes sociais, eleitores sentiram-se parte do processo democrático e participaram ativamente, sobretudo compartilhando notícias falsas. O resultado foi a vitória daquele que é chamado por seus seguidores de Mito, por isso não faz mais sentido mencionar seus adversários no presente texto. Afinal, perdedores nunca tiveram vez em nosso país, não é? Quantas vezes vimos um time sendo vaiado por seus torcedores porque perdeu a final do campeonato? Aliás, brasileiro não aprecia ler, mas adora vaiar! Então, esquecemos os perdedores da pretérita eleição! A bola da vez é o Mito e o Moro! Até porque pagamos seus salários. Eles são considerados por néscios e sofomaníacos respectivamente o político mais honesto da nação e o invencível super-herói. Mito e Moro, paixões nacionais.
Durante o pleito, se alguém postasse no perfil que o Mito era misógino, racista, preconceituoso já vinha nos comentários a pronta resposta: “pelo menos meu candidato é honesto”. Se alguém publicasse que o Mito era defensor de ditadura, tortura, milícia, devastação do ambiente e caça predatória de animais silvestres já vinha nos comentários a pronta resposta: “pelo menos meu candidato é honesto”. Se alguém ousasse declarar que o Mito recebeu propina já vinha nos comentários a pronta resposta: “pelo menos meu candidato é honesto”, mesmo o Mito tendo reconhecido o fato a Antônio Vila na Rádio Jovem Pan. Caso alguém indagasse onde estava o plano de governo do Mito? Já vinha nos comentários a pronta resposta: “pelo menos meu candidato é honesto”. Caso houvesse menção de que o Mito permaneceu 28 anos no Poder Legislativo sem fiscalizar os governos corruptos do Rio de Janeiro e sem aprovar consistentes projetos em prol da sociedade já vinha nos comentários a pronta resposta: “pelo menos meu candidato é honesto”. Indivíduos brigaram com familiares e amigos de longa data por causa do Mito.  Muitos néscios e sofomaníacos continuam a apaixonada defesa do Mito nas redes sociais, mesmo depois do desastroso princípio de governo e das revelações sobre o envolvimento de corrupção de seus filhos e de seu partido. O patrimônio do Mito não condiz com os salários recebidos. Precisaria esclarecer de onde veio a fortuna da família mitológica
Mais honesto ainda é considerado Moro, o destemido herói que subtraiu a corrupção de nossa nação. Nos municípios e estados não há mais fraudes nas licitações, não há mais propinas, não há mais desvios dos repasses da saúde e da educação. Moro desmontou o maior esquema de corrupção da história! Será? Estranhamente, a fim de atingir seus objetivos, desrespeitou leis e o código de ética da magistratura com o aval de alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal. Não entrarei no mérito das mensagens vazadas pelo jornalista Grenn Greenwald do Intercept Brasil, uma vez que à luz da razão são desnecessárias para confirmar as vergonhosas transgressões legais. No entanto, os defensores de Moro já têm a pronta resposta: “pelo menos Moro é honesto”. Contudo, não se aplicaria mais nem a máxima (atribuída equivocadamente a Nicolau Maquiavel) “os fins justificam os meios”, uma vez que as transgressões para esse propósito teriam de ser o genuíno combate à corrupção, não mera subtração de adversários políticos envolvidos em corrupção. Espera aí, Moro era juiz, não era político, diriam seus apaixonados fãs. Verdade, mas quando aceitou cargo político do presidente que foi apoiado publicamente por sua esposa trouxe evidências de suas pretéritas intenções. Aliás, o Mito não teria vencido as eleições sem a condução de Moro na Lava-Jato. Juiz tem de ser imparcial, mas Moro criou um cargo no Brasil, “Juiz Acusador”, uma vez que participou ativamente com o Ministério Público, orientou e ofereceu testemunha contra seu réu, coincidentemente aquele que poderia tirar a vitória de seu candidato nas eleições e futuro “patrão”. A Lava-Jato sempre foi um amplo projeto de poder que contou a participação de juízes, promotores, ministros do STF, policiais, empresários e alguns poucos políticos. Mas, pelo menos Moro é honesto! Não é? Honesto não! Talvez, não seja corrupto. Não podemos nos esquecer de que a Lava-Jato de Moro, fundou uma instituição sem fins lucrativos para gerir 2,5 bilhões de reais recuperados que deveriam retornar de onde havia sido roubado: Petrobras.
Deve-se, caríssimo leitor, ater que não empreguei o termo “ladrão” no presente artigo de opinião, porquanto inapropriado seria; não obstante, há nuances circunstanciais entre os atuais fatos e o Sermão do Bom Ladrão de Padre Antônio Vieira, um dos maiores expoentes do Barroco do Brasil ao lado de Gregório de Matos há quatro séculos. Não se trata, porém, de supor juízo de valor à apropriação indevida, mas tão somente ao discurso demagógico. O Mito e Moro não possuem discursos inovadores, são carregados de falácias: retórica de última categoria. Em nenhum momento, reitero, entrei no mérito de julgar suas atitudes, todavia de propor uma reflexão séria sobre os verdadeiros fatos, sem idolatria deste ou daquele partido. Considerar que tudo que escrevi como apoio de adversários políticos do Mito e de Moro é tomar o não dito pelo dito, clássica falácia de “mentes embotadas”.
LEIA
O Sermão do Bom Ladrão, foi escrito em 1655, pelo Padre Antônio Vieira. Ele proferiu este sermão na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante D. João IV e sua corte. Lá também estavam os maiores dignitários do reino, juízes, ministros e conselheiros. Seguem alguns trechos da obra:
Valendo-se da presença dos dois ladrões na crucificação de Cristo, condenados à morte “sem lhes valer procurador, nem embargo”, e citando a conduta daquele que pediu a Jesus que se lembrasse dele no Paraíso, passa a falar dos ladrões que assaltam o Reino e não são punidos.
Destaca que é mais comum ver-se ladrões que levam reis ao inferno, do que reis que levem ladrões ao paraíso.  Baseado em São Tomás de Aquino e em Santo Agostinho, destaca que para os ladrões, “sem restituição do alheio não pode haver salvação”, e que essa obrigação de restituir "não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas”.
Acentua se referir não aos ladrões miseráveis que roubam um homem, mas "àqueles que roubam cidades e reinos, sem temor, nem perigo”, e justifica porque considera que os Reis e príncipes são obrigados a devolver o roubado se os ladrões não o fizerem: “primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes com que roubam” e segundo porque os conservam neles.
Embora o rei não possa saber a priori se um indicado irá ou não roubar, para que não seja responsável pelos roubos, recomenda que as pessoas sejam nomeadas apenas por “merecimento”, o que, no geral, segundo ele, não ocorre. Aquele nomeado “sem merecimento”, diz Vieira, não é apenas ladrão, senão ladrão e ladrão: uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta do “merecimento” poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são.
Continua, “uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação .... e quando se negocia não há mister outra prova....agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto”.
Referindo-se a um relatório apresentado por São Francisco Xavier sobre a situação na Índia, e que segundo ele ocorria nas demais colônias portuguesas, Vieira afirmou que os seus governantes conjugam “por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos”.
E continua: “começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, a todo ele aplica despoticamente as execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que
mandem todos, os que não mandam não são aceitos".
"Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância."
"Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia usam de potência. Furtam pelo modo permissivo porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuar os furtos."
"Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência." 
"Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro do pretérito desenterram crimes, de que vendem perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo caído ou não caído lhes venham cair nas mãos."
"Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapa os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse."
"Em suma, que o resumo de toda esta rampante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas."
Verdadeiramente, continua o padre Antônio Vieira, “não sei como não reparam os príncipes em matéria de tanta importância.... se são ladrões, de nenhum modo se pode consentir nem dissimular que continuem no posto e lugar onde o foram, para que não continuem a ser”.
O Sermão é muito longo, mas de uma retórica brilhante e fundamentação lógica, e vale a pena ser lido por extenso.
Interessante é a posição de Vieira sobre a responsabilidade daqueles que nomeiam para cargos públicos pessoas “sem merecimento”, porque essa prática é muito generalizada no país.

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