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As Metáforas das Tamareiras

POR VANDI DOGADO  Certa vez ouvi de um palestrante a belíssima lenda de origem árabe que diz: “quem planta tamareira não colhe tâmaras”. Um afoito espectador na plateia interrompeu-o, erigindo a mão direita e, sem aguardar o devido consentimento, logo emendou em tom elevado e extenso: Mas, pooorqueeeee, senhor? O palestrante como se já esperasse o questionamento manifestou um incógnito sorriso e elucidou que a tamareira leva aproximadamente 100 anos para produzir frutos, ou seja, se considerarmos que a plantemos aos 20 anos de idade, teríamos de viver 120 anos para colher suas tâmaras. Considerei o provérbio esplêndido, porque dele se podem extrair nobres ensinamentos de linguagem e de sapiência. Primeiramente, se tomarmos a expressão no sentido denotativo, defrontemo-nos com uma típica falácia, pois, ainda que naquela época a expectativa de vida fosse baixa, haveria exceções para qualquer ser humano que plantasse a árvore antes dos vinte anos. Por exemplo, se uma criança de 10 anos

CONSIDERAÇÕES SOBRE A ÓPERA OS CAPULETOS E OS MONTÉQUIOS

 POR VANDI DOGADO

"O neurocientista Antônio Damásio afirmou certa vez que só a arte pode melhorar o ser humano. A arte serve para provocar sonhos, mexer com as emoções e com imaginário, escancarar as injustiças e oferecer sentido à existência, e, até mesmo, causar estranheza diante do inusitado. A arte possibilita a recriação de um mundo mais digno, belo e feliz"

No dia 15 de abril de 2022, assisti à ópera “OS CAPULETOS E OS MONTÉQUIOS”. Não se enganem, caros leitores! A ópera não se baseia no célebre livro de Willian Shakespeare, todavia na peça teatral de Luigi Scevola de 1818 que estreou somente em 1830 no Teatro La Fenice em Veneza. Tornando-se uma sensação por décadas. Gostei demais do que presenciei! Não só pela competência dos músicos e atores, todavia pelo que constatei nas entrelinhas da trama.

A fim de não cometer “spoiler”, evitarei comentar o enredo. Apenas expressarei minhas impressões sobre as sutilezas de resistência sugeridas pelo espetáculo. Já na abertura, evidencia-se o destaque LGBTQIA+ com objetivo de causar estranheza nos preconceituosos de plantão. No decorrer do espetáculo, cada detalhe ganha demasiada relevância para melhor apreensão da profunda crítica social.

Os soldados dos Capuletos portam fardas e armas contemporâneas e trazem na pele tatuagens de muitas cruzes e rifles, enfatizando a atual contradição de alguns cristãos que defendem fervorosamente o armamento da população. Frases como “negacionistas da paz” e “rebanhos bestiais” fazia respectivamente alusão àqueles que são contrários à ciência e aos fanáticos defensores de um certo político de parco cérebro.

Lembro-me que a visão mais chocantes em toda a minha vida foi a abertura de milhares de covas para enterrar aqueles que morreriam de Covid-19 no início de 2020. Em um momento da peça, causou-me certa comoção, não sei se foi coincidência a imagem, presumo que não. Apareceu ao fundo uma cortina que me fez lembrar as abundantes covas da pandemia. Trata-se da foto que estampa este artigo.

Sem se desviar da história original, a ópera logrou êxito em tocar em temáticas sociais que exigem reflexão dos espectadores. Logo, demonstra-se a enorme relevância da arte que, com sutileza, consegue transformar a sociedade em mundo mais tolerante, respeitoso, diverso e digno para todos. Gostaria imensamente de parabenizar todos os envolvidos pela relevantíssima produção artística.

PS:  A produção do Theatro São Pedro conta com a direção cênica de Antonio Araujo, iluminação de Guilherme Bonfanti, dramaturgismo de Antonio Duran e Silvia Fernandes, cenografia de André Cortez, coreografia de Cristian Duarte, visagismo de Tiça Camargo, direção musical de Alessandro Sangiorgi da Orquestra do Theatro São Pedro. Houve a participação do Coral Jovem do Estado de São Paulo e o protagonismo são das cantoras Denise de Freitas e Carla Cottini, que interpretam, respectivamente, Romeo e Giulietta.

ESTE LIVRO MENCIONA O GENOCIDA DA PANDEMIA. SE É FANÁTICO, AFASTA-SE!


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